sexta-feira, 25 de junho de 2010

Alimentos funcionais

Alimentos funcionais.

"Facilita o trânsito intestinal", "aumenta as defesas", "diminui o colesterol"... Estas mensagens atractivas são habituais nas prateleiras dos supermercados. Correspondem aos alimentos funcionais. Mas o que são na realidade? Que vantagens têm? Ajudam a perder peso? Neste artigo encontrará resposta a muitas dessas perguntas.
Em Portugal, é uma moda relativamente recente, mas o conceito de alimento funcional nasceu no Japão nos anos 80. Nessa altura, as autoridades sanitárias japonesas aperceberam-se que, para assegurar a sustentabilidade do sistema de saúde, provocado pelo aumento da esperança de vida, tinham de garantir também uma melhor qualidade de vida.

E foi assim que foi implementado o novo conceito de alimentos, desenvolvidos especificamente para melhorar a saúde e reduzir o risco de contrair doenças. O conceito funcionou e a indústria alimentar encontrou inúmeros produtos dos quais tirou partido.

A procura destes alimentos cresceu lado a lado com a esperança de vida da população. O conceito de "alimentação adequada" é substituído pelo de "nutrição óptima". Alimentar-se para obter apenas os nutrientes suficientes que cobrem as necessidades do organismo já não basta, é preciso consumir alimentos que melhorem a saúde e reduzam o risco de doenças.

Em poucos anos, os corredores dos supermercados encheram-se de alimentos cuja função vai além do simples facto de nutrir. São os denominados alimentos funcionais, uma categoria que continua a crescer e a ser cada vez mais procurada no nosso país.

Mas nem todos são o que anunciam. Muitos desses produtos não têm evidência científica das propriedades que a publicidade lhes atribui. Mas, funcionem ou não, a verdade é que já representam uma grande percentagem dos produtos consumidos pelos portugueses.

Funcionais porquê?

São considerados alimentos funcionais todos os produtos alimentares, naturais ou fabricados, que tenham um benefício adicional para além do seu aroma, sabor, textura ou valor nutricional, e que afectem funções fisiológicas de forma mensurável em termos de prevenção de uma doença ou melhoria da saúde.

Nos países anglo-saxões também são chamados nutracêuticos, fazendo referência tanto à sua origem alimentar, como à semelhança dos seus efeitos com os produtos farmacêuticos. Os alimentos funcionais contêm ingredientes que afectam positivamente determinadas funções do organismo.

Esses ingredientes podem ser macronutrientes (como os ácidos gordos insaturados do azeite e dos óleos de sementes), micronutrientes (como as vitaminas) ou compostos sem valor nutricional (como os flavonóides), mas são sempre componentes naturais dos alimentos, presentes no próprio alimento (como por exemplo, os ácidos gordos ómega-3 dos peixes azuis, ou a vitamina C dos citrinos) ou acrescentados para fortificar (como por exemplo, cálcio e vitamina D no leite, ácido fólico nos cereais).

Actualmente, os alimentos funcionais, naturais ou fabricados, são o objecto principal de investigação das marcas alimentares, mas já é óbvio que o primeiro passo para demonstrar a funcionalidade de um alimento deve basear-se num estudo detalhado das doses necessárias para que seja eficaz e seguro.




Quem é quem



Carotenóides: betacarotenos, luteína, licopeno...
Neutralizam a acção dos radicais livres que podem danificar as células e fortalecem as defesas antioxidantes das mesmas. Contribuem para uma visão saudável e para o funcionamento saudável da próstata. Encontra-os naturalmente em: cenouras, couves, acelgas, milho, ovos, tomate...

Fibra dietética: beta-glucano, fibra insolúvel, fibra solúvel...
Pode reduzir o risco de vir a padecer de doenças coronárias. Contribui para a manutenção da saúde do tracto digestivo e dos níveis saudáveis de glicose e colesterol no sangue. Encontra-os naturalmente em: farelo de aveia, farelo de trigo, cereais, frutas e vegetais...

Ácidos gordos: monoinsaturados, poli-insaturados (ómega-3, DHA/EPA), ácido linoleico conjugado (CLA)...
Reduzem o risco de doenças cardiovasculares e contribuem para o bom funcionamento das funções mentais e visuais.

Os alimentos enriquecidos com CLA podem favorecer uma composição corporal saudável e o funcionamento do sistema imunológico. A sua ingestão é conveniente se, por qualquer razão, houver dificuldade em introduzir estes nutrientes na alimentação, por exemplo, se se for alérgico ao peixe, cuja gordura é uma das melhores fontes de ómega-3. Encontra-os naturalmente em: nozes, avelãs, salmão, atum, óleos de peixe. O CLA encontra-se na carne de vaca e de borrego.

Flavonóides: antocianinas, catequinas, flavanonas...
Fortalecem as defesas antioxidantes das células e podem contribuir para a manutenção da função cerebral e da saúde cardíaca. Encontra-os naturalmente em: amoras, cerejas, chá, cacau, cebola, brócolos...

Fitoesteróis: estanóis livres
São substâncias vegetais parecidas com o colesterol humano, que quando são ingeridas, bloqueiam a absorção do colesterol prejudicial (LDL) no intestino. Podem reduzir o risco de doenças cardiovasculares. Encontra-os naturalmente em: milho, soja, trigo...

Probióticos: lactobacilos, bifidobactérias...
Microrganismos vivos que ajudam a restabelecer o equilíbrio da flora intestinal. São as chamadas bactérias boas, resultantes da fermentação do leite. Encontra-os naturalmente em: alho, mel, alho-francês, iogurte.

Prebióticos: inulina, fructo-oligossacáridos (FOS)...
São o substrato dos probióticos. Ajudam a activar o sistema imunitário e auxiliam a absorção do cálcio pelo organismo. Encontra-os naturalmente em: iogurte e alguns lacticínios. Estão presentes nas fibras do pão, dos cereais, nos frutos e, em maior quantidade, nos legumes.

Fitoestrogénios: isoflavonas
Contribuem para a manutenção da saúde óssea, para o funcionamento do cérebro e do sistema imunológico. Nas mulheres, mantêm a saúde na menopausa. Encontra-os natural em: soja e alimentos derivados.

Servem para emagrecer?

A indústria alimentar tem sido questionada pelos produtos que comercializa relativamente à sua possível relação com a obesidade. Por causa disso, os produtores da área alimentar começaram a incorporar novos ingredientes com o objectivo de ajudar os consumidores a atingir e manter o seu peso adequado.

No início, essa ajuda cingia-se aos denominados alimentos ligeiros ou light, magros ou sem açúcar. Mas, nos últimos anos, têm proliferado novos produtos que pretendem ir mais além, compostos por ingredientes com um suposto efeito sobre a termogénese (produção de calor que leva ao gasto de calorias), a absorção de gorduras e o metabolismo, ou com uma acção saciante, diurética e sedativa.

Contudo, de acordo com a nutricionista Alexandra Bento, "devemos sempre ter presente que a perda de peso deve acontecer de forma gradual, apoiada numa alimentação equilibrada, adequada a cada caso, e complementada com exercício físico".

Desvantagens dos alimentos funcionais

- São mais caros.

- As substâncias que dão esse benefício extra ao produto sempre existiram nos alimentos tradicionais. Por isso, muitos cientistas dizem que com uma alimentação equilibrada e variada não é necessário recorrer aos alimentos funcionais.

- Não existem muitos estudos sobre as possíveis consequências de ingerir uma dose extra destas substâncias, e é necessário investigar a quantidade adequada para que atinjam o efeito positivo, e saber se, quando tomados em doses elevadas, são absorvidos convenientemente.

Funcionais fora da lei

Até há bem pouco tempo, a legislação portuguesa não exigia aos fabricantes desses produtos que demonstrassem cientificamente os efeitos benéficos que publicitavam. Mas, em Julho do ano passado, entrou em vigor um regulamento que estabelece, em toda a União Europeia, as novas regras para as alegações nutricionais e de saúde dos produtos alimentares.

Resumidamente, o regulamento estabelece o seguinte relativamente às menções publicitárias contidas nos rótulos destes alimentos:

- Não podem ser falsas, ambíguas ou enganosas.
- Não devem incentivar ao consumo excessivo do alimento.
- Não podem afirmar, sugerir, ou dar a entender que uma dieta equilibrada e variada não proporciona as quantidades adequadas de nutrientes.
- As alegações nutricionais e de saúde devem ser baseadas e fundamentadas em dados científicos geralmente aceites, pelo que só deverão ser autorizadas para utilização na UE depois de uma avaliação científica do mais elevado nível possível. Cabe à Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (AESA) efectuar estas avaliações.





Estas substâncias podem ajudar a emagrecer



Com efeito sobre a termogénese

Ácido linoleico (CLA)
O ácido linoleico conjugado é uma substância que se encontra de forma natural no leite e na gordura dos ruminantes, e que ingerimos todas as vezes que consumimos lacticínios ou carne; mais concretamente, entre 1,5 a 2 gramas por dia. Vários estudos demonstraram que a ingestão continuada de 3 gramas diários de CLA depois de um regime de emagrecimento reduz a gordura corporal entre 3 a 11%, embora não provoque perda de peso. Por outro lado, segundo esses mesmos estudos, o efeito é menos evidente numa pessoa gorda do que numa com um peso normal.

Cálcio
Diferentes estudos encontraram uma relação entre a ingestão elevada de cálcio e o peso corporal ou a massa gorda. Em estudos in vitro, o cálcio inibiu a lipogénese (produção de gordura) e estimulou a lipólise (dissolução de gordura), o que provoca uma diminuição dos triglicéridos nas células gordas.

Saciantes ou que actuam sobre a absorção de gorduras

Fibra
Muitos dos produtos comercializados para a perda de peso contêm quantidades consideráveis de fibra, que, teoricamente, absorve água no trânsito intestinal, provocando um aumento da sensação de saciedade e, portanto, uma diminuição da ingestão de calorias de quem a consome.

Mistura de proteínas
Alguns alimentos incluem igualmente uma mistura de proteínas lácteas na sua composição por causa do seu efeito saciante.

Plantas medicinais com efeito sedativo
São acrescentadas a alguns alimentos para reduzir os sintomas de ansiedade que a realização de uma dieta de emagrecimento pode produzir, ainda que o uso destas plantas não tenha relação directa com a perda de peso.

As mais utilizadas são a passiflora ou a valeriana.

Revisão científica: Dra. Alexandra Bento (presidente da Direcção da Associação Portuguesa dos Nutricionistas)

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